“(...) o desenvolvimento do tema exigia que eu refutasse, baseando-me em fatos, a inefável objeção anti-espirítica segundo a qual, não se podendo assinar limites às faculdades supranormais da telepatia, da telemnesia, da telestesia, também nunca será possível demonstrar experimentalmente, portanto, cientificamente, a existência e a sobrevivência do espírito. (...) As provas de identificação espirítica, fundadas nas informações pessoais fornecidas pelos mortos que se comunicam, longe de serem as únicas que se podem conseguir para a demonstração experimental da sobrevivência, mais não são que simples unidade de prova, dentre as múltiplas provas que se podem extrair do conjunto de fenômenos metapsíquicos, mas, sobretudo, das manifestações supranormais de ordem extrínseca, as quais, de ninguém dependendo, resultam independentes dos poderes do inconsciente”.
Ernesto Bozzano, “Animismo ou Espiritismo?”, 1937
Fotos de Fantasmas
Ora, geralmente médiuns, sensitivos e paranormais provocam fenômenos ou dão informações que estão bem além dos conhecimentos deles e da assistência. Sem problema, os adeptos reducionistas radicais responsabilizam sempre e unicamente o paranormal, ainda que este aja “inconscientemente” e apontam para a criptestesia (conhecimento adquirido pela percepção extra-sensorial) onde o inconsciente do informante capta a informação existente em algum outro lugar (pela telepatia ou pela clarividência), para o sucesso de seus atos. Se este conhecimento é expresso em algum tipo de ação física, entra em ação a psicocinesia ou telecinesia (capacidade de afetar a matéria pela “mente”).

Bem, a foto acima foi tirada nos Alpes austríacos no final da década de 90. Sem que ninguém esperasse em uma foto tradicional de amigos, aparece um busto de uma pessoa desconhecida de todos, inclusive do fotógrafo, que parece atravessar a mesa. Para os adeptos do inconsciente "paranormal", alguém do grupo teria "inconscientemente" provocado o fenômeno. Mas o problema é que este tipo de argumentação é irrefutável exatamente por não ser provável. Como é que se pode provar que inconscientemente alguém desejava que uma figura aparecesse na fotografia “atravessando” a mesa? E mais, a foto foi batida sem flash, o que levou o fotógrafo logo depois, em segundos, a repetir o processo, e na segunda foto o “busto” já não aparece. Outra, havia um clima de descontração entre as pessoas e ninguém se lembra de ter se esforçado ou desgastado fisicamente (características típica de muitos paranormais que conseguem fotografias do pensamento, como Ted Sérios, geralmente obtendo siluetas ou figuras pouco nítidas) ao bater a foto. Mesmo assim, a desculpa da escotografia é usada e assim pretensamente explica tudo. Veremos, porém, que os poucos casos autênticos conseguidos voluntariamente apresentam características bem distintas dos casos espontâneos de fotografias de fantasmas, ou fotografias espirituais.

O vigário K. F. Lord da Igreja de Newby, perto de Yorkshire, em 1963 apenas queria registrar a foto do altar da Igreja, acabou depois por ver na chapa revelada um fantasmagórico, realmente assustador, espectro, em uma foto hoje famosa (foto acima), no qual aparece uma figura semelhante a um monge (alguns mais impressionáveis dizem que é a figura da morte), em processo de semi-materialização. Mas ai fica a pergunta: como ter certeza de que o inconsciente do fotógrafo estava realmente preocupado, planejando e materializando a foto do fantasma, e por quê? Como se mede o "pensamento" intencional do inconsciente? Como ele atua? Sai da "cabeça" da pessoa (ou alguma outra parte) para dar às caras às câmeras? Como podem eles ter a certeza de que, neste e em outros casos, isso foi fruto da ação do "inconsciente"? Por que ambos os fotógrafos não mais conseguiram repetir fotos semelhantes tendo um inconsciente tão talentoso?


O famoso Pe. Quevedo e seus discípulos (como o Pe. Juarez Farias, Márcia Côbero e outros) usam e abusam do fato de que um americano, chamado Ted Serios, demonstrou suas faculdades paranormais de escotografia em vários experimentos e pretendem que todas as fotografias de fantasmas, quando não são fraudes, seriam nada mais nada menos que escotografias inconscientes. Mas o que Quevedo não diz é que para conseguir as Escotografias (e muita gente acha que nem sempre todas as fotos conseguidas por Serios, geralmente silhuetas, eram autênticas, embora um bom conjunto delas dificilmente sejam explicadas por fraude, ainda que possam ser simuladas artificialmente), Serios se punha em um estado de grande tensão consciente para obter as fotos e, conforme GARCIA FONT, "com as veias prestes a rebentar, a suar e a beber whisky" (MONTAÑOLA, RYZL et al, 1978, vol. 1, p. 264), e freqüentemente punha uma ou as duas mãos em contato com a objetiva da câmera ou encostava a cabeça na lente da câmera. Ao lado esquerdo, uma foto de Ted Serios em ação e, à direita, uma de suas escotografias, de um prédio realmente existente.
A escotografia, portanto, existe, mas apenas em pessoas especialmete dotadas que se esforçam conscientemente para obter as fotos psíquicas. Coisa que não acontece com as fotos de fantasmas. Na maior parte das fotos de fantasmas acidentais, as pessoas não pensavam em obter as figuras, muito menos entravam em um nervoso estado de tensão conscientemente provocado. Aliás, existem fotos obtidas por circuitos internos sem que pessoa alguma estivesse presente, o que já deixa a teoria da escotografia de fantasmas igualmente em cheque: Quevedo e discípulos dizem que sem um sensitivo, paranormal ou qualquer que seja o nome dado, não existem fotos paranormais sem que a pessoa causante esteja presente até pouco mais de 50 metros de distância. Que dizer então da seguinte foto (trecho de um vídeo de um circuito fechado de tv), em um estacionamento vazio pelo circuito interno eletrônico de tv nos Estados Unidos, em uma área de mais de 150 metros, sem que ninguém estivesse presente, onde um fantasma está planando acima dos carros?

“Animismo ou Espiritismo, qual dos dois explica o conjunto dos fatos? Fácil se me tornou responder, nos termos seguintes:
“Nem um nem outro logra, separadamente, explicar o conjunto dos fatos supranormais. Ambos são indispensáveis a tal fim e não podem separar-se, pois que são efeitos de uma causa única e esta causa é o espírito humano que, quando se manifesta, em momentos fugazes durante a encarnação, determina os fenômenos anímicos e, quando se manifesta mediunicamente, durante a existência desencarnada, determina os fenômenos espiríticos”
Ernesto Bozzano, Animismo ou Espiritismo?, p. 9
pguimar@openline.com.br
Bibliografia:
BOZZANO, E. Animismo ou Espiritismo? 1995, Feb, Rio de Janeiro
EDSALL, F. S. O Mundo dos Fenômenos Psíquicos. 1999, Editora Pensamento, São Paulo.
MacKENZIE, A . Fantasmas e Aparições. 1986. Editora Pensamento, São Paulo.
MONTAÑOLA, J. R.; RYZL, M. Et al. Enciclopédia de Parapsicologia e Ciências Ocultas. 1978, RPA Publicações Ltda. Lisboa
TEIXEIRA DE PAULA, J. Enciclopédia de Parapsicologia, Metapsíquica e Espiritismo. 1972. Cultural Brasil Editora, São Paulo
(Publicado no Boletim GEAE Número 474 de 27 de abril de 2004)