Araçatuba/SP Domingo, 05 Set 2010 09:36:03

A Igreja, a Mídia e a Parapsicologia - Parte 9

Quarta, 09 Maio 2007 16:08:00
Descrição
Por:
Carlos Antonio Fragoso Guimarães
Não custa nada recordar um fato ocorrido no Anhembi, em São Paulo, em agosto de 1992, quando, no 1º Encontro Brasileiro de Parapsicologia e Religião, Henrique Rodrigues, Clóvis Nunes e o psicoterpeuta Ney Prieto Peres puderam, à convite da própria Igreja, participar de debates com o ilustre parapsicólogo jesuíta que, esperava-se, iria calar de forma irrefutável estes ilustres conferencistas e pesquisadores, que postulam a comunicação entre vivos e "mortos" como uma possibilidade rea
Artigo

Quando a questão revela implicações com a tese da existência e da sobrevivência do espírito após a morte do corpo físico, as coisas se complicam.

Defronta-se com uma muralha de cepticismo generalizado e até tradicional, pois há muito, a grande maioria dos cultores da Ciência vêm procurando demonstrar que o homem é um ser exclusivamente material; o resultado feliz (ou infeliz) da evolução cega da matéria apenas. Torna-se até elegante e aparentemente característica de elevado nível cultural, ser rigidamente céptico em relação à tese espiritualista (...) Alguns indivíduos, néscios ou doutos, chegam mesmo a exirmir-se da tarefa de examinar estudos sérios que eventualmente tratem dessas questões, para eles "proibidas" por uma ou outra razão. Repetem o comportamento dos conspíscuos professores da Universidade de Pizza, diante de Galileu, que os convidava a observar, por eles próprios, os satélites de Júpiter, olhando-os através da luneta. Negaram-se a aceitar o convite, baseados, além da Bíblia, na autoridade de Aristóteles, pois este sábio "nunca mencionara, em seus ensinamentos, a existência de tais satélites..."

Passados cerca de três séculos, os satélites de Júpiter foram fotografados de perto pelas sondas interplanetárias... E os sábios doutores de Pizza já não mais estavam vivos para constatar tais evidências que se transformaram em provas objetivas reais.

Por isso, não deve ter-se pressa ou ansiedade em convencer os cépticos, uma vez que o seu cepticismo não altera a realidade dos fatos (Andrade, 2002, pp.310-312).

 

 

É interessante mesmo observar que nosso "parapsicólogo sacerdote" não é sempre tão bem aceito mesmo entre muitos de seus confrades religiosos, e ele mesmo já teve de amargar algumas observações duras de seus superiores há algum tempo atrás. Foi assim que, em 1982, ele causou uma polêmica dentro dos próprios corredores da Igreja ao publicar seu livro Antes que os demônios voltem, tendo sido proibido por seu superior hierárquico, Pe. João Augusto MacDowell, de exercer temporariamente a atividade de parapsicólgo, o mesmo fato se repetido em agosto de 1984, quando o CLAP (Centro Latino Americado de Parapsicologia), órgão pretensamente científico e que tem uma santa, a Virgem de Guadalupe, como padroeira, instituição que foi fundada e é dirigida por nosso parapsicólogo, teve suas atividades suspensas.

Aliás, é de se destacar que ele, diante da posição assumida, ao menos aparenta coerência ao ter sérias dúvidas ou mesmo não aceitar como reais (como falou em um recente curso de parapsicologia realizado em João Pessoa) algumas das aparições atribuídas à Virgem ou a quem quer que seja (veja mais adiante suas próprias palavras a este respeito), como as que ocorreram em 1917 em Fátima, Portugal, e que são objeto de devoção de inúmeros católicos. Na verdade, o parapsicólogo teórico jesuíta não deve se sentir tão à vontade ante o relato dos vários fenômenos de aparições de que está cheio a história da Igreja, pois, sendo autênticas, e nem sempre sendo atribuídas à Virgem, ele tem de concordar que algo como um espírito, nos termos como o entendem os espiritualistas, existe - ou seja, algo que representa a existência de vida após a morte e que pode se comunicar com os "vivos" (possibilidade que ele negou veementemente no programa "Jô Soares 11 e Meia", quando ainda no SBT, para, paradoxalmente, aceitar a existência, no homem do "espírito" no programa do Fantástico, ao menos no que foi ao ar dia 12 de março de 2000. Meio contraditório o posicionamento do "Caçador de Enígmas).

O fenômeno das chamadas "aparições", contudo, é universal, conforme um estudo sério de antropologia e etnografia comprova na coleta de registros, relatos, tradições e lendas, pois se encontra em praticamente todas as culturas. A interpretação de quem os vivencia sempre se apresenta com os traços e roupagens culturais onde se manifestam (veja mais adiante o exemplo amplamente registrado pela imprensa internacional do fenômeno de Zeitun, no Egito, em 1968, desde, é claro, que se aceite como documento válido amplas reportagens da imprensa sobre fenômenos "estranhos"). Assim, uma aparição pode ser atribuída à Virgem, a uma Deusa hindu, a um espírito protetor, um anjo, etc., simplesmente porque esta se dá a um nível de percepção que é difícil de descrever na linguagem ordinária, daí a ocorrência de explicações religiosas para definir a quase indefinível experiência mística, como o sabem os psicólogos transpessoais.

Aliás, quanto à questão de Fátima, de Lourdes, de Medjuguore e outras, é bom que o "O Padre que não tem medo de assombração" seja mais claro e aberto frente às câmeras, pois se é submetido à hierarquia da Igreja, ele mesmo parece questionar o que a própria Igreja admite ser verdade, como neste trecho de entrevista que ele concedeu e se encontra no site "O Inexplicável HP", com o link Padre Quevedo 2:

"1- O Milagre de Fátima. - No início do século passado, três crianças viram no céu a imagem de Nossa Senhora, que teria revelado a eles três segredos. O terceiro, nunca revelado pelo Papa seria sobre o fim do mundo.
Pe. Quevedo: "Não há aparições! Se Fátima fosse uma aparição, todo mundo a veria. Francisco, uma das três crianças, não ouviu nada e não era surdo. Isso é um ERRO de interpretação, não são aparições, mas visões ao gosto do consumidor. Há um fenômeno parapsicológico chamado 'ideoplasmia', que é a idéia plasmada. Você emite uma energia e a imagem aparece como uma foto, é uma espécie de fotografia do pensamento"

E ai? Quem está certo? O Dizer oficial da Igreja que reconhece a aparição e seus milhões de crentes ou o Pe. Quevedo? Como uma instituição que se diz, na voz de sua ala mais radical - como a do Cardel Joseph Ratzinger, prefeito da antiga Inquisição, hoje chamada de Congregação pada a Doutrina (ou Defesa) da Fé -, a "única" realmente detentora da verdade pode ser assim tão dividida? Se Fátima foi um erro e a Igreja sabe disso, então ela manipula a fé das pessoas? E já que o famoso padre se diz tão devoto da Virgem de Guadalupe, como explicar que a referida imagem impressa em um poncho (avental ou capa) tenha se dado, segundo a lenda, depois de algumas "aparições" de Maria ao índio Juan Diego em 1531, se "aparições" não existem?

A questão do uso do conceito do inconsciente, próprio da Psicanálise a partir de Freud, por Quevedo tem sido tema de discussões nas salas e corredores das faculdades de Psicologia, já que este parece ser tudo, menos o inconsciente psicanalítico de Freud ou Jung. Na verdade, como bem falam os psicanalistas, o uso do termo inconsciente por algumas pessoas lembram mais o uso de um conceito vago para explicar coisas de que não se sabe nada. Ademais, é problemático se substantivar o "inconsciente", bem como o "consciente". Não existe um objeto espacial, físico, chamado "inconsciente", nem um que seja "consciente". Sabemos que áreas no cérebro que são ligadas à funções fisiológicas precisas, mas uma área específica da memória e do pensamento parece ser difícil de ser encontrada. O que existem são processos de memória, processos de pensamentos, processos conscientes e processos inconscientes, assim como uma música é um processo que está acima das notas musicais tomadas por si.

Mas "o" inconsciente tem sido algo estranho na teorias de alguns "experts". E prova de que isto pode se aplicar ao "parapsicólogo" jesuíta vem destas palavras que ele costumava usar na abertura de suas palestras: - Eu chamo de inconsciente a tudo aquilo que a psicologia, a psiquiatria e a psicanálise chamam de inconsciente inconsciente, o que é o mesmo de dizer, como alguma ornamentação retórica, que existe um preto escuro ou que o branco é claro. E aos que têm algum conhecimento da área, fica a impressão de que o padre não tenha de fato falado nada (pois que se o inconsciente é justamente inconsciente por não termos consciência dele, como é que pode ser ainda mais inconsciente do que já é?) E apesar do silêncio que geralmente reina após estas primeiras palavras, percebemos que realmente ninguém entendeu nada, ou, então, aparenta-se ter entendido o nada que foi expresso. Restaria aos psicólogos, psiquiátras ou estudantes de psicologia, então, se manifestarem e perguntar a qual escola de psicologia, de psiquiatria ou de psicanálise o conferencista está se referindo, mas quase sempre ninguém pergunta (e nas poucas vezes em que isso ocorre geralmente o expositor se sente muito incomodado e ofendido, como nos fala o médico Guaracy Lourenço da Costa em seu artigo sobre um curso ministrado pelo Pe. Quevedo), todos se conformam, aguardando pelo resto da exposição "científica". Aliás, convém lembrar que Freud era crítico severo da Igreja. Esta, aliás, foi extremamente rude com as teorias de Freud, como podemos ver por esta passagem de Allers, citada pelo psiquiatra Dr. Alberto Lyra em seu excelente e não-Quevediano livro "Parapsicologia, Psiquiatria e Religião":

"Não pode aceitar o freudismo nem como psicologia, tão impregnado está de filosofia materialista e hedonista, sendo portanto muito perigoso para o cristão qualquer contato teórico ou prático com ele" (LYRA, 1990, p. 183).

 

 

 

Alguns sacerdotes mais lúcidos, porém, começaram a ver que a importância da Psicanálise não poderia ser avaliada por preconceitos religiosos. No mesmo livro o Dr. Lyra cita Joseph Nuttin:

"O fato de se terem realizado progressos nesta ciência (a Psicologia) sem nós e muitas vezes contra nós, foi culpa nossa (dos sacerdotes), isto é, 'por nossa falta de interesse' (pois reconhecemos demasiado tarde a sua importância) e 'por nossa atitude passiva' (pretendendo simplesmente tirar proveito do que fizessemos a outros), pelo que iríamos pagar bem caro, inclusive porque não nos basta no momento fazer aplicação da Psicologia aos nossos problemas (...) e até que se possa reformular a nossa Filosofia à luz das conquistas psicológicas" (LYRA, 1990, p. 182).

 


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