Araçatuba/SP Quinta, 11 Mar 2010 14:38:15

Maestro Brandini, o inovador da Banda Municipal é sinônimo de saudade

Sabado, 15 Set 2007 10:28:00
Descrição
Por:
Jornal do Povo de Araçatuba/sp, 8 set. 2007 - Edição 019 - Ano I página 10. Disponível em: www.jornaldopovoata.com.br

Artigo
O músico Luiz Ferreira Gomes, 88 anos, o popular maestro Brandini, é sinônimo de saudade das boas coisas da vida: música de qualidade, seresta, Carnaval, alegria, solidariedade, ousadia. Por falar em ousadia, foi ele quem introduziu nos idos dos anos 1960 a música popular no repertório da Banda Municipal de Araçatuba que, até então, só tocava retreta – daí o apelido de “furiosa”. A inovação levava à praça multidões, ainda não contaminadas pela tecnologia besteirol e pela música pastiche.

Autodidata, mas músico de partitura, o alagoano que chegou a Araçatuba no início dos anos 1950 para ficar em definitivo é conhecido em muitas regiões do País pela participação em conjuntos e orquestras como Marajoara (Catanduva), J. Rodrigues (Catanduva), Pedrinho e sua Orquestra (Guararapes), Os Mexicanitos (formado somente por músicos brasileiros de várias regiões), Renato Peres e sua Orquestra (Rio Preto), os Guanabaras, Araçá Som, Trio Sonoro, Regional da Rádio Cultura (todos de Araçatuba) e, logicamente, o conjunto Luiz Brandini, que marcou época no Acea, no Araçatuba Clube e Clube dos Bancários, quando este funcionava no centro da cidade.

Nos aniversários da Rádio Cultura, 7 de Setembro, nos anos 1960, grandes intérpretes vinham à cidade abrilhantar a festa e eram acompanhados pelo Regional da Cultura, logicamente comandado pelo maestro Brandini. Também nos aniversários de Araçatuba, ele tocava na Praça Rui Barbosa ou na Quadra Cinqüentenária. Nessas e em outras oportunidades, acompanhou ao violão Nélson Gonçalves, Ângela Maria, Altemar Dutra, Cauby Peixoto, Luiz Vieira, Moacir Franco, Carlos Poyares (exímio flautista). “Muitas vezes eram só meu pai ao violão, no centro da Quadra Cinqüentenária, e o intérprete”, conta o seu filho Humberto Ferreira Gomes, o Betinho.

Querido e inesquecível pelos amigos, os encontros de improvisos marcaram época na vida do velho Brandini. Possivelmente em 1976, Luiz Gonzaga, o rei do baião, veio a Araçatuba para uma apresentação e foi visitar o amigo que conhecera ainda no Nordeste. A rua Olavo Bilac, onde morava o maestro, ficou tomada de curiosos para ver o “arrasta-pé” improvisado por ele ao violão e por Gonzagão no acordeom. O violeiro Tião Carreiro era freqüentador da casa de Brandini.

Outro encontro improvisado seu deu nos início dos anos 1970. Altemar Dutra veio à cidade para uma apresentação profissional e acabou no bar do Armec, no centro da cidade, acompanhado pelo maestro. Os boêmios da época se deliciaram com o show num dos botecos mais badalados de então. Já no início dos anos 1980, foi a vez de Cauby Peixoto tê-lo como companheiro de improviso a convite de um pecuarista araçatubense já falecido.

Poucos sabem o porquê de Luiz Ferreira Gomes ser conhecido por “Brandini”. O nome é uma referência ao pai que se chamava Brandino. Por fim, um testemunho de que Luiz Ferreira Gomes é sinônimo de saudade. Quando ainda trabalhava na lavoura, quando perfurava poços e cortava cabelos para ganhar a vida, conheceu em Santa Mercedes, na região da Alta Paulista, a também alagoana Irene Rodrigues. “Conheci ele na janela enchendo o saco. Meu cunhado abria a porta, eu fazia café e lá ele amanhecia o dia”, recorda-se a eterna companheira e mãe de seus seis filhos: os jornalistas Brandino e Humberto, o músico violonista José Luiz e os comerciários Aloísio, Maria de Lourdes e Madalena.




O músico Luiz Ferreira Gomes, o maestro Brandini, embora fisicamente forte já não sai de casa sozinho, pois há alguns anos foi acometido pelo mal de Alzheimer. Porém, ainda guarda marcas do que foi sua vida de artista. “Você mora em Guararapes?”, questiona aos visitantes, possivelmente um resquício de lembrança dos tempos em que atuou na memorável Pedrinho e sua Orquestra (Guararapes), “tem festa lá hoje?”, insiste, na tentativa de reviver as alegrias típicas da vida de músico.


Alegria é uma das marcas registradas desse alagoano que adotou Araçatuba para ensinar a sua arte, formar bons músicos e fazer amigos. “É um grande músico, tanto erudito quanto popular”, afirma o também músico José Renato Gimenez, autor de uma homenagem a ele há dois anos na Praça João Pessoa. “Assim que o conheci, o que me contagiou foi a alegria dele, sempre de bem com a vida”, afirma Zé Renato.

“Às vezes ele era duro com o pessoal, queria tudo muito bem ensaiado, mas também sempre foi uma pessoa fantástica, sempre alegre”, garante Wellington Bolla, que nos anos 1980 tocou com o maestro no conjunto “os Araçás”. “Destaco nele o fato de ser autodidata”, afirma o radialista Líbero Bezerra de Lima, o Belô, que atuou na Rádio Cultura AM quando a emissora tinha um regional comandado pelo maestro Brandini. “Quando o conheci, ele tocava cavaquinho, depois passou ao violão e por último, nas orquestras, tocava baixo acústico”, recorda-se o radialista, “ele aprendeu tudo com muito esforço”.

O funcionário público Juvêncio Dias Gomes, amigo e admirador, Bolla, Belô e Mário Eugênio, que o acompanhou como cantor em muitos Carnavais, destacam o carinho e a solidariedade com que o maestro Brandini tratava os companheiros. “O músico que passasse por Araçatuba só dormia em hotel se quisesse”, recorda-se Mário Eugênio. Belô lembra os conjuntos que o maestro formava por ocasião dos Carnavais para dar trabalho aos companheiros. “Teve época em que chegou a formar dois conjuntos simultaneamente”, afirma. “É um músico excepcional e um homem de grande caráter, despreendido, sempre pronto a ajudar os amigos”, testemunha Juvêncio.

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