Araçatuba/SP Quinta, 11 Mar 2010 14:39:10

A lei e a misecórdia

Domingo, 31 Maio 2009 21:01:00
Descrição
Por:
O cotidiano coloca o jurista, principalmente o juiz, diante de situações concretas. A resposta aos desafios do dia-a-dia não está na abstração dos princípios, mas na capacidade de humanizar a norma legal. À face de um mundo pluralista, como o mundo moderno, é viável defender uma concepção ética do Direito? Creio que sim. A partir do próprio pluralismo. Sem dogmatismo
Artigo

A lei e a misecórdia
 
João Baptista Herkenhoff
 
Não sou a favor do aborto. Eu me posto reverente diante da sacralidade da vida.
Não sou a favor do divórcio. Quando vou a casamentos sempre formulo votos para que só a morte separe aqueles que se unem.
Não sou a favor do suicídio. Só Deus pode marcar o momento em que alguém deve partir.
Não sou a favor da eutanásia. A vida tem um valor infinito, mesmo quando marcada pelo sofrimento.
Diante desses temas e de outros semelhantes, suponho que haja duas situações muito diferentes.
A primeira situação é o julgamento ético do aborto, do divórcio, do suicídio, da eutanásia e  de outros temas relacionados com o procedimento humano.
A segunda situação é o julgamento das pessoas envolvidas nos casos concretos.
O julgamento ético é peremptório e deve ser peremptório porque a Ética pretende estabelecer rumos ideais para a caminhada humana, não apenas para o procedimento individual, como também para o procedimento coletivo.
Quando se trata do julgamento das pessoas envolvidas nos casos concretos o foco altera-se totalmente.
Nesta matéria, mesmo para as pessoas que não tenham Fé, suponho que a mais bela lição foi dada por Jesus Cristo diante de Madalena.
Jesus Cristo não aprovou, nem subscreveu a conduta de Madalena, mas Jesus Cristo compreendeu Madalena.
Quando se pretende o julgamento frio dos atos e dos fatos, sob a luz teórica de princípios, sem atinência às circunstâncias às vezes dramáticas que envolvem os casos, homenageia-se a lei, coloca-se a lei como referencial básico (dura lex sed lex), quando, na verdade, o referencial básico é o humanismo, a compaixão, a misericórdia.
Todos estamos às voltas com questões éticas no curso de nossa existência. No caso das pessoas que integram o mundo do Direito, a indagação ética faz parte do cotidiano.
O cotidiano coloca o jurista, principalmente o juiz, diante de situações concretas. A resposta aos desafios do dia-a-dia não está na abstração dos princípios, mas na capacidade de humanizar a norma legal.
À face de um mundo pluralista, como o mundo moderno, é viável defender uma concepção ética do Direito?
Creio que sim. A partir do próprio pluralismo. Sem dogmatismo. Antropologicamente.
A luta para a salvaguarda da essência do Direito é um dever ético do jurista. O instrumental teórico para esse posicionamento pode ser encontrado em diferentes fontes:
seja no direito supralegal a que se refere Radbruch;
seja numa referência crítica para a legislação vigente, como propõe Hermes Lima;
seja na tentativa de humanização da Justiça, a que se reporta Flóscolo da Nóbrega;
seja no catálogo dos Direitos Humanos proclamados em foros internacionais, ou trazidos à prática efetiva, através de convenções e tribunais supranacionais.
Além de tudo isso deveremos lutar por valores que se afirmem mais na praxis do que nas definições teóricas.
A este propósito é impressionante a sabedoria popular.
Numa “comunidade eclesial de base”, na periferia de Vitória, o povo que precisava de terra para construir suas modestas habitações, cantava nas celebrações religiosas:
“Queremos terra na Terra,
já temos terra no Céu.”“.
Essa “terra na Terra” é “direito” das pessoas, “direito” das famílias, “direito” dos operários, ainda que a legislação e a organização social do país neguem esse direito aos que dele necessitam.
Diante de tema tão contundente, a única coisa intolerável é que, ante o esmagamento de homens, de classes, ou de povos, sob o amparo de sistemas legais, não possa o jurista dizer, como o profeta, ao déspota ou à classe dominante: “Não te é lícito!”
 
João Baptista Herkenhoff, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e escritor.
E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage: www.jbherkenhoff@uol.com.br



5 / 5 (1 Votos)

Texto inserido em ENEASCORREA.COM em:
Domingo, 31 Maio 2009 21:01:00
 
Acessado em:
Quinta, 11 Mar 2010 14:39:10
 

Comentários para este artigo


Mais artigos desta Categoria

PV ENTRA COM ADIN NO STF CONTRA A
O partido argumenta que, com a restrição imposta pela Lei da ...

Diploma oficial de barbeiro
A possibilidade de perda total do veículo e da não indenização pelo ...

O mal que o mau faz...
Portanto, fosse no Brasil, dentro da nossa hipótese da ...

Indescritível aura dos juízes
Mais adiante, na obra citada (de leitura obrigatória), prossegue: ...

Despotismo no Judiciário?
Não há como esconder que no âmbito da justiça criminal temos os ...

Cidadania: olhar para o futuro sob
O povo tem de aprender a vencer seus desafios, com suas próprias ...

Discriminação genética
Qual seria esse padrão de excelência e quem o fixaria? Não seria de ...

Sobre os direitos do idoso
Jornal do Povo de Araçatuba/sp, 22 set. 2007 - Edição 021 - Ano I ...

É ilegal a prática de negar
orém, indaga-se: e se o acidente que ocasionou a lesão incapacitante ...

 
 
 
Anúncios Recomendados
Comentar este artigo
Nome Completo:
E-mail:
Assunto:
Texto:




Anuncie Grátis (Sujeito a triagem)

 




 Clique


Últimas do site - Todas Categorias
 
 
Aries Touro G����¯�¿�½���¯���¿���½����¯�¿�½������ªmeos C����¯�¿�½���¯���¿���½����¯�¿�½������¢ncer Leao Virgem Libra Escorpi����¯�¿�½���¯���¿���½����¯�¿�½������£o Sagit����¯�¿�½���¯���¿���½����¯�¿�½������¡rio Capric����¯�¿�½���¯���¿���½����¯�¿�½������³rnio Aquario Peixes






Fonte: http://www.horoscopovirtual.com.br

_uacct = "UA-2064166-1"; urchinTracker();


Anúncios Recomendados

 
 
Powered by: PHPCow.com